Após mais de 25 anos de intermináveis negociações, iniciativa reacende debate sobre perdas e ganhos
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia entra em vigor nesta sexta-feira (1º), inaugurando uma nova etapa nas relações econômicas entre os dois blocos. A implementação, no entanto, ocorre de forma provisória e limitada à parte comercial do tratado, enquanto o texto completo ainda depende de aprovação definitiva por todos os países europeus. Segundo estimativas da CNI, mais de 80% dos produtos vendidos pelo Brasil ao bloco europeu passam a ter tarifa de importação zerada nesta fase inicial de implementação do acordo.
A fase iniciada agora permite a redução gradual de tarifas e a ampliação do acesso a mercados, criando uma área econômica que abrange mais de 700 milhões de consumidores. Na prática, empresas dos dois lados passam a operar com menos barreiras comerciais, o que pode estimular exportações, investimentos e integração produtiva.
Apesar disso, a aplicação integral do acordo ainda enfrenta um caminho longo. A parte política e institucional do tratado precisa ser ratificada pelos parlamentos nacionais da União Europeia, processo que pode levar anos e enfrenta resistências, especialmente em países com forte setor agrícola.

Quem ganha
Entre os principais beneficiados no Brasil e no Mercosul estão setores exportadores, sobretudo o agronegócio. Produtos como carne bovina, soja, açúcar, etanol e suco de laranja tendem a ganhar competitividade no mercado europeu com a redução de tarifas e a ampliação de cotas.
A indústria também pode se beneficiar em segmentos específicos, como o de alimentos processados e algumas cadeias industriais integradas. Além disso, a expectativa é de aumento de investimentos estrangeiros, já que o acordo traz maior previsibilidade jurídica e regras comuns.
Consumidores europeus também podem sair ganhando, com acesso a produtos agrícolas mais baratos, enquanto consumidores sul-americanos podem se beneficiar da entrada de bens industriais europeus com preços mais competitivos ao longo do tempo.
Quem perde
Por outro lado, há setores que enfrentam riscos. No Brasil, a indústria manufatureira é apontada como uma das mais vulneráveis, devido à concorrência com produtos europeus de maior valor agregado, especialmente nos segmentos automotivo, farmacêutico e de máquinas e equipamentos.
Na Europa, agricultores — especialmente na França, Espanha e Irlanda — têm demonstrado preocupação com a concorrência de produtos agrícolas do Mercosul, que costumam ter custos mais baixos. Esse é um dos principais focos de oposição ao acordo dentro do bloco europeu.
Também há críticas de ambientalistas e especialistas, que alertam para possíveis impactos negativos, como aumento do desmatamento e pressões sobre padrões ambientais e sanitários.
Um acordo ainda em construção
A entrada em vigor provisória marca um avanço importante, mas não encerra o debate. O acordo Mercosul–União Europeia continua sendo um dos mais ambiciosos já negociados pelos dois blocos, e um dos mais controversos. Nos próximos anos, sua implementação completa dependerá não apenas de trâmites institucionais, mas da capacidade política de conciliar interesses econômicos, sociais e ambientais em ambos os lados do Atlântico




