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Home Enogastronomia

[:pb]Blanquette de Limoux. O primeiro vinho espumante do mundo[:]

por Liz Elaine
5 de janeiro de 2016
em Enogastronomia, Enogastronomia
Tempo de Leitura: 5 mins
A A

[:pb]

FRANÇA LIMOUX

Terminando o livro sobre o Mundo das Borbulhas, não deveria antecipar esta parte, porém, a história é linda e merece o devido destaque. Propaganda é tudo na vida comercial, mas os fatos devem ser desmistificados sob pena de repetirmos palavras vãs e sem sentido, replicando inverdades.

A pergunta é. Onde nasceu o primeiro vinho espumante do mundo?

Esqueçam a região de Champagne e seu vinho borbulhante. Esqueça a lenda de Dom Pérignon. Foi em Limoux, no sudoeste francês no Languedoc-Roussilion, do outro lado do país e bem antes da fama do champagne aconteceu o nascimento do primeiro vinho espumante que se tem notícia.

SOBRE LANGUEDOC-ROUSSILION E SUA CULTURA

Languedoc-Roussilion percorre toda a borda do Mediterrâneo desde a fronteira com a Espanha nos Pirineus Médios até a Provence. Região que sempre recebeu enormes influências externas. Vários povos por ali passaram.

Desde os Fenícios passando pelos Gregos Antigos que fundaram Marselha,a mais antiga cidade do país e  segunda mais populosa e principal porto comercial, até hoje. Marselha, Marseille (ocitano a língua falada na região de então), conhecida pelos Gregos Antigos por Massália.

Depois dos Gregos Antigos, os Romanos andaram por lá e fundaram Narbonne, capital da Província (Com origem no Latim provincia, território sob o domínio romano, como a soma de pro (à frente + vencer), de Narbonnaise que ia da fronteira da Espanha até a Provence.

Lembrando que estes dois povos tinham o vinho como bebida principal. Onde iam levavam mudas, técnicas de plantio, elaboração e conservação dos vinhos.

Com a derrocada do Império Romano hordas de povos germânicos invadiram o sul da Europa. Entre eles estavam os Godos que se separaram em Visigodos (Godos do leste) e os Ostrogodos (Godos do oeste). Os Visigodos rumaram para o leste do continente e fixaram-se na península Ibérica e parte da França, notadamente centro sul e sudoeste. Na França fundaram outra cidade chave Toulouse, a mais importante cidade do sudoeste francês.

Depois de um século foram derrotados pelos árabes que ali ficaram até sua expulsão por Carlos Magno que fundou o Império Carolíngio unificando uma série de reinos pequenos sob o manto de uma mesma língua e cultura.

Estamos na Idade Média. Época das Cruzadas. Legiões de soldados e cavaleiros a expandir, saquear e matar em nome da religião católica, cada vez mais poderosa e anárquica a terminar na cisão com e a criação da Igreja Protestante Alemã com Martinho Lutero.

Dois capítulos interessantes acontecem aqui. A eliminação dos Cátaros, puro em grego,  que divergindo da Igreja Católica criaram um movimento cristão de ascetismo isto é viver isolado e em perfeita harmonia com a natureza tendo como polo central, a cidade de Carcassonne, chamada ainda hoje no meio rural de país dos Cátaros, no Languedoc, por volta de 1.200. O movimento foi tão forte no sul da Europa e na Europa Ocidental que a Igreja Católica Romana passou a considerá-lo uma séria ameaça à religião ortodoxa e ordenou uma Cruzada que dizimou mais de 20.000 pessoas. Ainda hoje em localidades isoladas nas montanhas a ideia dos Cátaros ainda vive.

Outro capítulo, também, ocorrido no Languedoc foi a expulsão dos Huguenotes, entre os anos de 1560 e 1570 , após dois massacres com mais de 1.000 mortos por volta a perseguição continuou periodicamente até 1598, foi assinado o Édito de Nantes. Muitos foram para a América outros, talvez a maioria para a África do Sul, levando consigo mudas de Chenin Blanc que mais tarde se tornou uma uva chave por lá.

Por fim a língua até hoje falada no meio rural, mas que já foi oficial. O Ocitanne. Língua do tempo da Roma Antiga falada da Aquitânia (Bordeaux) até a Provence.  O nome Languedoc vem de Langue de Oc. O nome da língua vem de òc, a palavra occitana para sim, em contraste com oïl, (o ancestral do francês moderno oui), em Francês do Norte a Langue d’oil.

Ao final o Languedoc com vários reinos independentes foi finalmente anexado à França por volta de 1500.

Tudo isto foi escrito para mostrar a importância e diversidade cultural do Languedoc-Roussilion e como, até hoje, há diferenças enormes entre o sul da França e o norte. Sempre foi assim. Fora que o Languedoc hoje representa uma fatia enorme na exportação de belos e únicos vinhos.

languedoc-wine-map

LANGUEDOC WINE MAP

Mas e as borbulhas? Vamos a elas. Em Limoux na subida dos Pirineus, mesmo um lugar quente e ensolarado há plenas condições para que se plante a Mauzac (uva fundamental) do vinho espumante.

Limoux vejam no mapa está acima de Minervois bem alto já nos médios Pirineus. Com seus vinhedos plantados em 300 metros de altura, recebendo do frio todas as vantagens para produzir o que o Languedoc pode produzir de vinhos brancos e espumantes. Não se esqueçam as uvas brancas adoram o frio, principalmente nas noites de verão o que retardam seu amadurecimento, diminuem a quantidade de açúcar e mantém a acidez elevada.

Aqui são plantadas as tradicionais brancas, como Chardonnay, Chenin Blanc e a nativa Mauzac. Uva branca nativa do sudoeste na cidade de  Gailac. Aromática com acidez firme. Entra nos cortes dos vinhos doces de Gailac ou nos espumantes de Limoux (Languedoc) os famosos Blanquet du Limoux onde traz a acidez necessária a um bom espumante. Tem a versão Mauzac tinta e rose (mutação) da branca. Raras e utilizadas somente em casos especiais com vinhos locais.

Hoje em maior quantidade a Chenin Blanc e a Chardonnay.

Pois bem, esqueçam a lenda de Dom Pérignon que não estava querendo as bolhas, mas sim, eliminá-las, muito antes, nesta Abadia Beneditina de Saint-Hilaire os monges de lá conseguiram encapsular o Co2 formado pela fermentação espontânea.

abadia-de-saint-hilaire

ABADIA DE SAINT HILAIRE

 Nesta Abadia em 1513, segundo os relatos registrados e, claro, sem intenção alguma, o monge responsável pela elaboração dos vinhos verificou uma nova fermentação na garrafa advinda das leveduras ainda restantes, mesmo que este vinho estivesse lacrado com a devida rolha. Ali, muito antes de Champagne se tornar região produtora por excelência o mundo conhecia o espumante.

Há registros na Abadia. Em 1544 Sr Arques pede Blanquette para celebrar suas  vitórias. Em 1584 o Duque de Joyeuse brindam com Blanquette. O principal deles um documento de 1794 dando como bebida conhecida em todo o país a Blanquette de Limoux.

Lembrando que o espumante é um vinho base que sofreu uma única fermentação, método Ancestral ou a segunda fermentação pelo método Charmat ou pelo sistema tradicional ou Champenoise.

Hoje o espumante da região é dividido assim:

BLANQUETE MÉTODO ANCESTRAL

Um espumante elaborado com uma única casta, a Mauzac numa única fermentação, nos trazendo um vinho mais leve, algo em torno de 7 G/L ligeiramente frisante e engarrafado na primeira lua de março. Após 8 meses pode ser comercializado.

BLANQUETTE MÉTODO TRADICIONAL

Um espumante com no mínimo 90% de Mauzac e os outros 10% divididos entre a Chardonnay e a Chenin Blanc. Com um mínimo de 9 meses de espera em garrafa.

CRÉMANT DE LIMOUX

Lembrando que Crémant é o nome dado aos espumantes franceses que estão fora da região demarcada de Champagne. Assim temos o Crémant d’Alsacie, de Borgonha e assim por diante. Pois o de Limoux é composto de no mínimo 60% de Mauzac e o restante entre Chardonnay e Chenin Blanc a gosto do produtor.

Assim surge o nascimento das borbulhas. Eu não vivo sem. Me lembra Armstrong tentando uma saída para viver sem ela.

Fonte : Peter Wolffnbutell – https://alemdovinho.wordpress.com

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