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Embaixador cubano classifica bloqueio de Trump como “política genocida”

por Embassy News
19 de fevereiro de 2026
em Entrevistas
Tempo de Leitura: 8 mins
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Foto: Richard Silva/PCdoB na Câmara

Foto: Richard Silva/PCdoB na Câmara

Adolfo Curbelo, denuncia as novas sanções dos EUA ao comércio de petróleo com a ilha como uma medida que priva a população de meios de subsistência.

O embaixador de Cuba no Brasil, Adolfo Curbelo Castellanos, classifica o bloqueio econômico e energético dos Estados Unidos (EUA) contra a ilha caribenha como uma “política genocida” que busca privar a população dos seus meios de subsistência. O representante do governo cubano recebeu a Agência Brasil na embaixada do país, em Brasília, para falar sobre o endurecimento do bloqueio econômico a ilha. O embargo já dura 66 anos, com as primeiras medidas adotadas logo após a Revolução Cubana, de 1959. 

“Sem energia, tudo fica comprometido. O que eles fizeram foi condenar o povo cubano ao extermínio. Um país como Cuba, que precisa de petróleo para gerar eletricidade, simplesmente não pode importá-lo no exercício de seu direito soberano. A soberania do resto do mundo também foi violada pelos EUA, não apenas a de Cuba”, afirmou Curbelo.

No último 29 de janeiro, o presidente norte-americano Donald Trump editou nova Ordem Executiva classificando Cuba como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança de Washington, citando, como justificativa, o alinhamento de Havana com Rússia, China e Irã.

A decisão prevê a imposição de tarifas comerciais aos produtos de qualquer país que forneça ou venda petróleo a Cuba. A ameaça tem agravado a crise energética do país, que dependia, até 2023, de derivados de petróleo para cerca de 80% da energia consumida, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).

Em 5 de fevereiro, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel denunciou a decisão de Trump como mais uma tentativa para derrotar a Revolução Cubana, que viria a instalar o primeiro governo de inspiração comunista na América Latina, desafiando a política de Washington para o continente.

Durante a entrevista, o embaixador Adolfo Curbelo destacou que Cuba vive uma situação de guerra não convencional, o que explicaria as atuais dificuldades enfrentadas pela população. Para o diplomata, a nova medida tem efeitos “devastadores” sobre a ilha, que tem adotado medidas de austeridade extrema e tem apostado na ampliação da energia solar e na solidariedade internacional.

Entrevista exclusiva com o Embaixador de Cuba no Brasil, Adolfo Curbelo – Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Agência Brasil: Como a nova medida dos EUA contra o comércio de petróleo prejudica a economia e a sociedade cubanas?

Adolfo Curbelo: Há um acúmulo de fatores. Viemos de um bloqueio de 67 anos, reforçado durante o primeiro mandato de Trump, com mais 243 medidas adicionais que permaneceram em vigor durante toda a presidência de Biden.

Nós vivemos sob um bloqueio rigoroso que incluiu, por muitos anos, medidas de guerra não convencional para atingir, por exemplo, navios que transportavam petróleo para Cuba, ou companhias de seguros para navios. Muitas embarcações foram abordadas para impedir que o petróleo chegasse a Cuba.

Em 29 de janeiro, o presidente dos EUA emitiu decreto que diz que qualquer país que vendesse petróleo a Cuba estaria sujeito a sanções. Eles já haviam garantido que nenhum petróleo da Venezuela chegaria a Cuba. Toda essa medida busca, precisamente, subjugar Cuba. Dizemos que é uma medida que constitui genocídio declarado.

Agência Brasil: Por que é um genocídio?

Adolfo Curbelo:  Porque priva o povo cubano de seus meios de subsistência. A economia de um país depende de energia. Com energia, o país se move, cuida dos doentes nos hospitais, produz alimentos, movimenta e transporta a população. Sem energia, tudo isso fica comprometido. O que eles fizeram foi condenar o povo cubano ao extermínio. Acho que essas coisas precisam ser chamadas pelo nome.

Um país como Cuba, que precisa de petróleo para gerar eletricidade, simplesmente não pode importá-lo no exercício de seu direito soberano. Agora, a soberania do resto do mundo também foi violada pelos EUA, não apenas a de Cuba. Os efeitos disso na economia e no país são devastadores. Agora, isso não significa que estejamos indefesos.

Agência Brasil: Como Cuba pretende enfrentar esse momento?

Adolfo Curbelo: A situação é muito tensa. O país teve que tomar medidas de austeridade extremas para priorizar a proteção do que é mais necessário. Em primeiro lugar, a população. Embora haja longos apagões em todo o país, foram adotadas medidas de organização do trabalho para que as pessoas trabalhem de casa, priorizando aqueles que mais precisam sair para trabalhar.

Foram feitos trabalhos de eletrificação em áreas que exigem proteção especial: hospitais, escolas, e até casa com crianças que, devido às suas condições de saúde, precisam de eletricidade. Essas casas estão sendo priorizadas.

Estamos trabalhando para aumentar a extração e o refino de petróleo no país. Temos trabalhado para aumentar a instalação de painéis solares no país para gerar eletricidade a partir de energia fotovoltaica. No ano passado, conseguimos instalar painéis solares para gerar 1.000 megawatts. Essa instalação nos permitiu ter agora quase 40% da geração de eletricidade diurna do país proveniente de painéis solares.

Esse investimento permitiu aumentar a porcentagem da geração total de eletricidade nacional, a partir de energia solar fotovoltaica, de 3% para 10%. O sistema bancário, hospitais, escolas e centros de produção de alimentos estão sendo protegidos com painéis solares.

Isso não quer dizer que estamos bem, pois ainda há um déficit muito agudo na geração de eletricidade, que está ligado à falta de combustível. Ainda não temos a capacidade de armazenamento necessária para distribuir essa eletricidade. A maior parte da infraestrutura de geração instalada no país consiste em usinas termelétricas e a maioria delas possui tecnologia obsoleta que não podemos modernizar porque é muito caro.

Agência Brasil: Algumas empresas de aviação suspenderam os voos para Cuba por falta de combustível para retornar, como empresas do Canadá. Qual é o efeito desse bloqueio sobre o turismo? 

Adolfo Curbelo: O turismo é uma das principais atividades do país para obtenção de divisas. Com as divisas obtidas, importa-se inclusive petróleo. Quando não tem petróleo, não tem combustível para abastecer os aviões que transportam turistas.

Os EUA também estão tentando interromper o fluxo turístico para o nosso país e impedir a entrada de dinheiro. É por isso que falei de genocídio, porque o objetivo dessa medida é justamente privar o povo cubano de seus meios de subsistência. O bloqueio é parte de uma política de genocídio.

Agência Brasil: Como você avalia a resposta da comunidade internacional a essa nova medida do governo Trump?

Adolfo Curbelo: Há uma rejeição generalizada da política dos EUA no mundo. Ninguém aceita as tarifas, ninguém aceita a agressão, ninguém aceita nada disso, a política de chantagem.

Também acredito que a solidariedade aumentará com a resistência do povo cubano. Houve uma significativa condenação internacional. O Movimento Não Alinhado, que engloba a maioria dos países do mundo — o chamado Sul Global — emitiu uma declaração rejeitando a ordem do governo do presidente dos EUA. Países importantes como a Rússia e a China, entre outros, emitiram fortes declarações de rejeição e solidariedade a Cuba, afirmando que prestarão auxílio ao país. A China doou 70 mil toneladas de arroz para Cuba.

O México tem mantido uma posição firme, defendendo, digamos, seu direito de ajudar Cuba. Há dois dias, vários navios da Marinha mexicana enviaram mais de 900 toneladas de ajuda humanitária para Cuba. Enviados especiais de Cuba visitaram a China e o Vietnã, e Cuba recebeu importantes visitas da Rússia.

Agência Brasil: Mas as medidas práticas de ajuda internacional não seriam ainda tímidas?

Adolfo Curbelo: Acreditamos que a mobilização internacional é muito importante. A denúncia e o diálogo político são muito importantes, mas também acreditamos que a solidariedade prática é importante, a possibilidade de ajudar e apoiar o povo cubano a resistir.

José Martí, o apóstolo da independência cubana, disse que fazer é a melhor maneira de falar. Todos nós podemos desempenhar um papel. Não devemos nos limitar a contar uma história, mas devemos agir para mudar essa história para derrotar a política dos EUA.

Isso não tem apenas a ver com uma defesa de Cuba, mas como uma defesa da América Latina, de todos nós. O ataque contra Cuba não é apenas contra Cuba. O ataque contra Cuba e a Venezuela é um ataque contra todos nós. Declaramos a América Latina uma zona de paz. E eles querem transformar isso em um espaço de guerra, de conflito, da imposição da lei do mais forte. Nós resistiremos e venceremos.

Agência Brasil: Até onde o governo cubano acredita que irá a política de bloqueio dos EUA?

Adolfo Curbelo: A decisão de Cuba de defender sua soberania e independência, mesmo com o uso de armas se necessário, é inabalável. Somos uma nação pacífica. Sempre declaramos nossa disposição em manter uma relação respeitosa com os EUA, inclusive com o atual governo americano, e nossa disposição em dialogar em pé de igualdade.

No entanto, não podem ser impostas condições, não pode haver interferência nos assuntos internos de Cuba, nem qualquer tentativa de subjugar ou subordinar nosso país aos interesses dos EUA. A independência e a soberania de Cuba são inegociáveis.

Fonte: Agência Brasil

Tags: Adolfo CurbeloCubaEmbaixadorEstados UnidosgenocidaMiguel DíazpolíticaTrump
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