Relatório global mostra desaceleração da destruição de florestas tropicais virgens em 2025, em grande parte graças aos resultados brasileiros, após recorde negativo de 2024. A perda de cobertura, porém, foi 46% mais alta do que há 10 anos
Por Isabella Almeida
Depois de 2024 ter superado recordes de destruição das florestas tropicais virgens, o problema desacelerou em 2025, em grande parte graças ao Brasil. Os resultados são de um relatório publicado ontem, pelo Global Forest Watch, observatório do grupo americano World Resources Institute (WRI) e da Universidade de Maryland. No entanto, os cientistas alertam que a perda de território de matas continua em níveis preocupantes.
Conforme a publicação, regiões tropicais perderam no ano passado 4,3 milhões de hectares de mata virgem, uma área equivalente ao tamanho da Dinamarca. Apesar de o prejuízo ser grande, houve uma queda de 36% em relação a 2024, quando a destruição dessas áreas, essenciais para a biodiversidade, abastecimento de água e armazenamento de carbono, atingiu um recorde, com o desaparecimento de 6,7 milhões de hectares.
A diminuição é “animadora” e revela a pertinência de certas ações governamentais, avaliou Elizabeth Goldman, codiretora do Global Forest Watch. Todavia, ela acredita que essa redução pode ser apenas temporária. “Os bons tempos precisam durar para sempre se quisermos preservar a floresta tropical”, declarou Matt Hansen, professor da Universidade de Maryland.
Apesar dos avanços recentes, o equivalente a 11 campos de futebol de matas nativas desaparece no mundo a cada minuto. Além disso, as perdas de florestas tropicais continuam 46% mais altas do que há 10 anos. Nesse contexto, a meta global de deter o desmatamento até 2030 parece difícil de alcançar, já que os níveis atuais são 70% mais altos do que o esperado, destaca a publicação.
Segundo o relatório, grande parte da melhora em 2025 se deve ao Brasil. Em 2025, graças à implementação de políticas como plano antidesmatamento e endurecimento das sanções por infrações ambientais, o país reduziu em 41% o deflorestamento nativo não relacionado a incêndios em comparação com 2024, atingindo o nível mais baixo já registrado.
Segundo Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), é importante perceber que dois fenômenos estão ocorrendo na Amazônia. “Um é o desmatamento raso, que é monitorado pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) por meio de satélites, sendo facilmente detectável. Outro processo que está preocupando a ciência é a degradação florestal, principalmente causada pelo aquecimento global e diminuição da precipitação sobre amplas regiões do planeta, em particular sobre o sul da Amazônia e sobre o Brasil Central.”
Artaxo detalha que a redução de precipitação está degradando as florestas, tornando-as mais suscetíveis a incêndios. “Isso deve preocupar o governo brasileiro, a população e toda a comunidade científica que lida com estratégias para a redução de emissões de gases de efeito estufa. Para reduzir a degradação florestal, a principal medida a ser adotada é reduzir o aquecimento global por meio do fim da exploração de combustíveis fósseis o mais rápido possível.”
Além disso, a destruição de florestas primárias continua elevada em outras regiões do mundo, como na Bolívia, na República Democrática do Congo (RDC), em Camarões e em Madagascar.
De forma geral, a perda da cobertura arbórea mundial diminuiu 14% em 2025. A expansão agrícola continua sendo o principal fator de destruição, mas a proporção de incêndios também desempenhou um papel importante em 2025, representando 42% da perda total.
“Nos últimos três anos, os incêndios destruíram mais do que o dobro da cobertura florestal de há vinte anos”, destacou Goldman. As chamas podem ter origem natural, mas na maioria das vezes são causadas pelas pessoas.
Na França, a destruição das florestas pelas chamas foi sete vezes superior à de 2024. Na Espanha e em Portugal, 60% das perdas de árvores são causadas por incêndios. Conforme os cientistas, essa ameaça aumentará nos próximos anos devido às alterações climáticas, que tornam as condições mais quentes e mais secas.
Conforme André Ferretti, engenheiro florestal, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e gerente de economia da biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, destaca em anos de El Niño há uma quantidade de incêndios maior. “Nos próximos dois ou três meses, há uma expectativa da chegada de um novo El Niño, que, inclusive, tem uma probabilidade média alta de ser o maior e mais intenso dos últimos 140 anos. Isso significa que é preciso muita atenção, muito preparo para que ele não cause tantos danos.”
“Regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil, em ano de El Niño, ficam mais secas e mais suscetíveis a incêndios; e as regiões Sul e Sudeste têm mais volume de água, mais umidade. Sabendo disso, é preciso traçar todo um planejamento.” Segundo Ferretti, é preciso intensificar as medidas de prevenção e combate a incêndios e ter muita atenção no manejo das propriedades rurais para evitar que o fogo saia do controle, gerando prejuízos e grandes impactos tanto nas áreas produtivas quanto nas naturais.
Para o Global Forest Watch, o ano de 2026 “será determinante”, tanto por conta do fenômeno natural quanto pelas eleições ao redor do mundo. Segundo Marco Moraes, divulgador científico e autor do livro Planeta Hostil, o sucesso obtido em 2025 é frágil. “Em 2026, já vemos o setor privado e governos estaduais de estados como Rondônia, Maranhão e Mato Grosso, desfazendo o que o Brasil federal conquistou em 2025: traders saem do acordo da Moratória da Soja, e estados retiram incentivos fiscais. O que está em jogo nas eleições deste ano no Brasil e na Colômbia vale, na prática, mais do que 10 tratados internacionais. Dependendo de quem vencer, todas as conquistas podem ser perdidas.”
Europa esquenta em velocidade recorde
A Europa sofreu uma sucessão de fenômenos climáticos extremos em 2025, em um momento em que o continente está se aquecendo mais rápido que o resto do mundo e segue sob ameaça de um retorno do El Niño. As informações são de um novo relatório publicado ontem pelo observatório Copernicus em parceria com a Organização Meteorológica Mundial (OMM). O trabalho recorda que, desde a década de 1980, o continente “aqueceu duas vezes mais rápido que a velocidade média mundial”.
A situação pode piorar com o El Niño, que provoca um aumento de temperatura no centro e no leste do Pacífico equatorial e cuja ocorrência é “provável” este ano, observou Celeste Saulo, secretária-geral da OMM, embora seja muito cedo para afirmar com certeza. Segundo a publicação, as ondas de calor são cada vez mais frequentes e graves em pelo menos 95% do território europeu.
A região formada por Finlândia, Suécia e Noruega viveu a onda de calor mais longa desde que há registros, com 21 dias a 30ºC ou mais em julho de 2025, o dobro do recorde anterior. Na Europa como um todo, os recordes de calor se multiplicam. Na Turquia, a temperatura ultrapassou pela primeira vez os 50ºC e, na Grécia, 85% da população foi afetada por calor que chegou a 40ºC ou mais.
Degelo imparável
As geleiras registraram uma grande perda líquida em 2025. A Islândia, por exemplo, viveu o segundo pior degelo anual depois de 2005. “Segundo as previsões, as geleiras da Europa e de todo o mundo continuarão perdendo massa ao longo do século 21, seja qual for o cenário de emissões”, o que afeta dois bilhões de pessoas que dependem da água das montanhas A Groenlândia perdeu 139 gigatoneladas de gelo no ano passado, o suficiente para aumentar o nível do mar em quatro milímetros.
Os oceanos também foram afetados, com um recorde de 86% das regiões aquáticas registrando pelo menos um dia de episódio de calor “intenso”. As ondas de calor têm grandes consequências para a biodiversidade, sobretudo nas pradarias submersas do Mediterrâneo, que atuam como barreiras marinhas naturais e são sensíveis às temperaturas elevadas.
Para Francisco Eliseu Aquino, climatologista do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), chama muita atenção o impacto da amplificação da mudança climática no Ártico. “À medida que o planeta aquece, os continentes ficam mais quentes também, e o gelo marinho diminui tanto no inverno quanto no verão do Ártico. Assim, os mares e o Oceano Ártico, ficam mais aquecidos, favorecendo a amplificação desses eventos climáticos. Essa amplificação do Ártico, claro, vai repercutir em todo o Hemisfério Norte, mas mostrou que a região leste da Europa foi mais quente que o Oeste, justamente por causa da continentalidade europeia.”
Conforme Alexandre Prado, líder em mudanças climáticas do WWF-Brasil, é sempre um pouco assustador ler esse tipo de relatório. “O tamanho do impacto, do efeito das mudanças climáticas nos diversos lugares do planeta, está se antecipando muito em relação ao que era previsto e numa escala muito maior. Vemos o tamanho do degelo na Groenlândia, o impacto que isso tem na corrente central do Oceano Atlântico e o que isso pode causar quando olhamos os cenários dessa corrente aqui no Brasil, no Atlântico Sul e na Amazônia. A repercussão é sistêmica, em um volume muito maior e muito mais intenso do que a gente imaginava.”
Duas perguntas para
Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UnB) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC)
O Brasil teve um papel central nessa redução. Quais políticas públicas foram mais eficazes e quais desafios ainda ameaçam esse progresso?
O Brasil tem muitos anos de experiência com políticas públicas de combate ao desmatamento que incluem comando e controle, além de outros instrumentos, como acesso ao crédito e financiamento. O desmatamento na Amazônia voltou a subir quando, no governo Bolsonaro, houve o abandono dessas estratégias e o discurso político que incentivou a menor proteção ambiental. A retomada do combate ao desmatamento a partir de 2023 tem apresentado resultados positivos, mas a análise da situação atual aponta para o desafio que o avanço do crime organizado representa para a conservação da floresta e de suas comunidades. Associar a contenção das atividades ilícitas e da violência ao controle do desmatamento é essencial. Não obstante o progresso na Amazônia, também precisamos lembrar que, no Cerrado, ainda não observamos uma redução significativa do desmatamento.
Com o aumento dos incêndios florestais, como as mudanças climáticas e eventos como o El Niño podem agravar esse cenário no curto prazo?
Hoje, temos clareza de que, além do combate ao desmatamento, é preciso avançar no monitoramento e em estratégias para reduzir a degradação florestal. Incêndios florestais são um dos vetores de degradação florestal, e a mudança climática deve favorecer as condições para esses incêndios. Por isso, as estratégias devem considerar o clima futuro e como favorecer a resiliência dos ecossistemas diante de distúrbios mais intensos e frequentes.
Fonte: Correio Braziliense





