Por rachel Alves M Nariyoshi
Muito antes da inauguração de Brasília, em 1960, a ideia de transferir a capital para o interior do país já fazia parte do imaginário político brasileiro. Trata-se de um projeto antigo, estratégico e ligado à integração territorial e à soberania nacional.
O primeiro registro formal remonta a 1823, quando José Bonifácio de Andrada e Silva propôs a criação de uma capital no interior, visando à ocupação do território central e promoção do equilíbrio regional. Décadas depois, a Constituição de 1891 incorporou essa ideia, prevendo juridicamente a transferência para o Planalto Central.
Em 1892, a Missão Cruls, liderada por Luís Cruls, delimitou e estudou a região mais adequada para a futura capital. Após levantamentos geográficos, climáticos e topográficos, definiu o “Quadrilátero Cruls”, com cerca de 14.400 km², trazendo base científica a um projeto até então político.
A concretização ocorreu com Juscelino Kubitschek (JK). Em 1955, durante campanha em Jataí/GO, quando Antônio Soares Neto (conhecido por Toniquinho), um jovem corretor de seguros e advogado, com 29 anos de idade, o questionou sobre o cumprimento da Constituição quanto à transferência da capital. JK assumiu publicamente o compromisso, episódio que ficou conhecido como “Compromisso de Jataí”, incorporando a proposta ao seu plano de governo.
Ao assumir a presidência em 1956, JK priorizou a construção no Plano de Metas. Com base nos estudos da Missão Cruls e no respaldo constitucional, iniciou uma das maiores obras do século XX, concluída em apenas três anos e meio, no coração do Brasil.
Assim, Brasília não foi um projeto improvisado, mas a realização de um ideal planejado por mais de um século. A transferência da capital representou um gesto estratégico voltado à integração nacional, ao desenvolvimento do interior, à redução das desigualdades regionais e ao fortalecimento da identidade brasileira.
Planejada por Lúcio Costa e com arquitetura de Oscar Niemeyer, Brasília nasceu como uma cidade moderna, funcional e simbólica, com o Plano Piloto organizado de forma racional (pelo menos era essa a ideia). Construída em tempo recorde, é marcada pela presença dos “Candangos”, trabalhadores que ergueram a cidade.
Ao longo das décadas, Brasília consolidou-se como centro político e administrativo do Brasil, desempenhando papel fundamental nas decisões que conduzem o país. Mas sua importância vai além da política: reconhecida como UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, a cidade é um dos mais importantes conjuntos urbanísticos do século XX.
Brasília é, ainda, uma cidade de contrastes e singularidades. Entre o concreto monumental e o céu infinito do Cerrado, desenvolveu uma cultura própria, marcada pela diversidade de seus habitantes, pela riqueza gastronômica e pela crescente valorização de iniciativas culturais e enogastronômicas, incluindo, mais recentemente, a produção de excelentes vinhos no Cerrado de Altitude.
Parabéns!
Brindamos aos 66 anos de Brasília.
@rachelalves.professoradevinhos




