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Entre patrimônio e modernidade: o legado urbano que Baku quer deixar ao mundo

24 de fevereiro de 2026
em Artigos
Tempo de Leitura: 4 mins
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Baku, sede da próxima sessão do Fórum Urbano Mundial, é um laboratório urbano em transformação, capaz de integrar memória e tecnologia em um mesmo horizonte estratégico

Rafig Rustamov — conselheiro da Embaixada da República do Azerbaijão no Brasil

Às vésperas de sediar a décima terceira sessão do Fórum Urbano Mundial, o Azerbaijão projeta-se novamente como palco de um diálogo global decisivo. Após a realização da COP29, o país volta ao centro das atenções internacionais ao preparar, em Baku, entre 17 e 22 de maio de 2026, o WUF13 — encontro convocado desde 2002 pelo ONU-Habitat. Trata-se do principal fórum técnico mundial sobre desenvolvimento urbano sustentável e assentamentos humanos, reconhecido como o terceiro maior evento do sistema ONU. O fato de a diretora-executiva do programa, Anaclaudia Rossbach, ser brasileira acrescenta um simbolismo especial à participação do Brasil e reforça as pontes entre os dois países.

O tema escolhido — Habitação para o mundo: cidades e comunidades seguras e resilientes — não poderia ser mais urgente. Quase 3 bilhões de pessoas enfrentam algum tipo de precariedade habitacional, fenômeno que desafia governos, urbanistas e investidores. Ao reunir representantes de 166 países e mais de 13 mil participantes já inscritos, o WUF13 demonstra que a agenda urbana deixou de ser periférica e passou a ocupar o centro das estratégias de desenvolvimento. Prefeitos brasileiros, gestores locais e atores do setor privado terão oportunidade de compartilhar experiências e de, sobretudo, aprender com realidades distintas.

A decisão do presidente Ilham Aliyev de declarar 2026 como o “Ano do Planejamento Urbano e da Arquitetura” confirma que o evento não é apenas protocolar, mas parte de uma visão de Estado. O país reivindica com legitimidade uma tradição urbanística secular, reconhecida pela Unesco. Em Baku, o conjunto histórico de Icherisheher e o Complexo do Palácio dos Shirvanshahs testemunham a sofisticação medieval; a imponente Torre da Donzela permanece como símbolo da identidade nacional. Fora da capital, o centro histórico de Shaki e o Palácio do Khan revelam a riqueza cultural que moldou a formação urbana do país.

Ao mesmo tempo, a paisagem contemporânea dialoga com o futuro. O Centro Heydar Aliyev, com suas linhas fluidas, tornou-se ícone de inovação arquitetônica; as Torres Flame e o complexo Cidade Branca traduzem a ambição de uma capital que combina preservação histórica e modernização acelerada. Essa convivência entre passado e futuro fortalece o discurso do Azerbaijão como laboratório urbano em transformação, capaz de integrar memória e tecnologia em um mesmo horizonte estratégico.

Outro aspecto que merece atenção é o amplo programa de reconstrução em territórios anteriormente ocupados. Declaradas zonas de “energia verde”, essas áreas receberam planejamento para mais de 100 assentamentos, incluindo 12 cidades, em um intervalo de tempo incomum na prática internacional. A revitalização de Shusha, com a restauração de sua fisionomia histórica, simboliza não apenas reconstrução física, mas afirmação cultural e coesão nacional. É um exemplo concreto de como planejamento urbano pode estar associado à reconciliação e ao desenvolvimento sustentável, integrando infraestrutura moderna, eficiência energética e valorização patrimonial.

Em recente entrevista à Agência Estatal de Notícias do Azerbaijão, Anaclaudia Rossbach destacou que do Azerbaijão se podem esperar experiências relevantes para cidades centradas nas pessoas e na natureza. Essa afirmação reforça a percepção de que o WUF13 não será mero palco de discursos, mas espaço de troca prática de soluções, especialmente num momento em que mudanças climáticas, desigualdades sociais e pressões demográficas convergem para um mesmo desafio urbano.

O governo lançou sessões informativas on-line para engajar academia, governos locais e setor privado, apresentando prioridades temáticas, formatos de participação — como assembleias, mesas-redondas, WUF Academy e Urban Expo — e iniciativas preparatórias, a exemplo da Azerbaijan Urban Campaign e da Baku Urban Week. A mobilização demonstra planejamento estratégico e desejo de legado duradouro, indo além da simples organização logística de um grande encontro internacional.

Mais do que sediar um grande evento, o Azerbaijão parece empenhado em afirmar uma narrativa: a de que cidades resilientes nascem do equilíbrio entre memória, inovação e visão estratégica. Ao acolher o WUF13, Baku não apenas oferece sua infraestrutura e hospitalidade, mas apresenta ao mundo um modelo em construção — um país que reconhece o peso de sua história e, ao mesmo tempo, investe em soluções urbanas compatíveis com as exigências do século 21.

Fonte: Correio Braziliense

Tags: AzerbaijãoBakuFórumModernidadeONU-HabitatpatrimônioRafig Rustamovurbano
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