O Embaixador Veljko Lazic abre hoje (22), às 19h30, no Palácio do Buriti, a exposição “Ivo Andric – escritor e/ou diplomata”, Em entrevista exclusiva à Revista Embassy Brasília, o diplomata fala de turismo, de conflitos e das relações com o Brasil.
Súsan Faria
Fotos: Eliane Loin
A Sérvia tem belezas naturais, um cinema forte e atletas de renome como o jogador de futebol Dejan Petkovic, o Pet, que atuou no Flamengo. Os sérvios passaram por grandes conflitos e guerras. O país – a 1h20 de voo até Roma e 2h30 até Paris – se reconstrói e aposta no turismo, pois tem muito o quê mostrar: música, culinária, tradições, natureza. Aos 48 anos, casado, pai uma filha de 13 anos, o embaixador Veljko Lazic está há três anos e meio em Brasília. Aprendeu português em Lisboa, onde foi terceiro conselheiro da embaixada da Sérvia, depois foi para Vaticano e Roma, e no Brasil fez questão de trocar o sotaque lusitano pelo brasileiro, observando como os brasilienses falam. O diplomata recebeu a equipe da Embassy com café, leite e muito pão-de-queijo, feito em sua residência.

O que a Sérvia está comemorando este mês?

O senhor poderia resumir como está a Sérvia hoje? Quais os avanços?

Qual é hoje o maior desafio no país?


A nossa moeda é o Dinar e entrar na UE não significa entrar de imediato na zona do Euro. Alguns países que estão no bloco não são da zona do Euro. Isso pode ser feito depois. Isso depende da economia. O turista que for a Sérvia deve trocar seu dinheiro por Dinar, mas a melhor moeda para cambiar é o Euro.

Outro grande desafio é o diálogo que temos com Pristina (a Capital de “Kosovo”). “Kosovo” declarou unilateralmente a independência, sendo que a maioria dos países da UE a reconhece, embora não reconhecida por exemplo pelos países do Brics, incluindo o Brasil, e pela maioria dos países da América Latina. Nós temos um diálogo com representantes de Pristina, com a mediação da UE, para falar sobre assuntos diversos para melhorar a situação da população que mora lá – sérvios e albaneses – mas sem tratar do status do “Kosovo”, que é parte da Sérvia, sob administração da ONU, pela Resolução 1244 do Conselho de Segurança. Não reconhecemos a declaração unilateral de independência do “Kosovo” bem como cinco países da UE – entre eles a Espanha.

Há 80 anos temos relações diplomáticas com o Brasil, um longo período. Em 1938, foram abertas representações diplomáticas nos dois países (em Belgrado e no Rio de Janeiro). Na época, a Sérvia fazia parte do Reino da Iugoslávia, que sucedeu o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos .Não temos muitos sérvios no Brasil, mas sim descendentes, metade deles em São Paulo e os demais no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Estão bem integrados, são professores universitários, empreendedores, advogados, médicos famosos, atletas como o Dejan Petkovic, que jogou no Flamengo, ou Aleksandar Mandic, cujo apelido é o Bill Gates do Brasil. A nossa troca comercial com o Brasil é moderada. A EMS de São Paulo (renomada empresa farmacêutica no Brasil) adquiriu a maior fábrica da Sérvia e uma das maiores dos Balcãs, a Galenika, no final do ano passado. Estamos orgulhosos com esse investimento brasileiro na Sérvia, num período particular de dificuldades econômicas. Vão produzir e exportar medicamentos para a Europa, Brasil… Esperamos que este investimento atraia outros investidores em outras áreas. Há vantagens de se investir também na Sérvia, pois temos acordo de livre comércio com, por exemplo, a UE, Rússia, Turquia, CEFTA, EFTA e outros. Estamos inseridos em um mercado de um bilhão de clientes. Há grandes possibilidades para investidores brasileiros no setor de agricultura e indústria têxtil e exportar sem taxas para os países da UE e outros mercados. Entramos nos trilhos para aumentar o nosso comércio.
Como está o turismo na Sérvia?


O turismo tem aumentado a cada ano na Sérvia, especialmente de países da nossa região, da Turquia e Rússia. Os turistas brasileiros ainda são poucos lá, mas agora acho que muitos vão aproveitar a sua ida para a Copa na Rússia e vão passear no país.

Além de Belgrado, a capital mais conhecida e a maior cidade, temos outras cidades, o turismo nas estações térmicas, montanhas, rios, uma beleza fantástica, e dois festivais muito conhecidos, o Exit, de música eletrônica, rock e pop, em julho, na cidade de Novi Sad – a segunda maior do país; e em agosto, o festival de trompete Guca, a 150km de Belgrado.
Qual é a comida típica da Sérvia?

Como o senhor se sente em Brasília? Há alguma similaridade com a capital Sérvia?
Brasília é muito diversa. Gosto muito. Estamos muito bem. Sinto-me em casa. O clima é bom. Gosto dos brasileiros. A embaixada da Sérvia – que então fazia parte da República Federativa Socialista da Iugoslávia – foi a primeira aberta em Brasília, em julho de 1963, antes da mudança do Itamaraty do Rio de Janeiro. Temos semelhanças, ainda que estejamos distantes: somos alegres, gostamos de dançar, do futebol, da vida noturna. Aprecio comer tapioca de banana com canela e queijo, pão-de-queijo, churrasco, especialmente picanha. Da música, tenho preferência da bossa-nova. Já Belgrado tem uma vida cultural forte, com divertimento, muitos bons clubes e restaurantes. É uma cidade que não para, que não dorme. Temos na Sérvia uma herança religiosa, igrejas, os objetos dos cultos ortodoxos cristãos, uma história muito rica. Passamos muitos conflitos e guerras, pois nossa região fica no cruzamento entre o mundo oriental e ocidental, entre duas culturas diferentes e chamando a atenção das potências, mas hoje estamos num caminho da integração europeia, já que pertencemos à Europa. Temos 7,5 milhões de habitantes, dos quais dois milhões em Belgrado. O perigo é ir lá e se apaixonar.







