Entre acusações cruzadas e guerra de narrativas, embaixada paquistanesa em Brasília emite visão do país em relações ao novo relatório da UNAMA
A divulgação de um novo relatório da Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA), nesta terça-feira, 12 de março, voltou a ampliar a tensão regional entre o Paquistão e o regime Talibã, em meio ao agravamento da violência transfronteiriça e às disputas sobre a utilização de áreas civis em operações militares.
O documento da UNAMA aponta elevado número de vítimas civis decorrentes de operações atribuídas ao Paquistão, especialmente nas proximidades da instalação de reabilitação de dependentes químicos Omid, em Cabul. A publicação, entretanto, passou a ser fortemente contestada por analistas de segurança, grupos antitalibã e setores ligados ao governo paquistanês, que acusam a missão da ONU de ignorar o contexto mais amplo do terrorismo regional e da militarização de espaços civis pelo regime afegão.
A principal crítica do governo paquistanês gira em torno da confiabilidade das informações coletadas pela missão da ONU dentro de um território integralmente controlado pelo Talibã. Segundo os questionamentos, testemunhas, deslocamentos, acesso institucional e fluxos de informação operam sob influência direta das autoridades talibãs, o que levantaria dúvidas sobre a independência das verificações conduzidas pela UNAMA.
Além disso, críticos apontam que a missão não monitora ataques terroristas ocorridos dentro do Paquistão, apesar do aumento expressivo da violência em 2025. Dados apresentados por autoridades paquistanesas indicam que o país registrou 1.957 mortes e 3.603 feridos em ações terroristas transfronteiriças neste ano, enquanto 3.079 combatentes teriam sido neutralizados em operações de segurança.
O debate também envolve a presença de organizações extremistas em território afegão. O país segue sendo apontado como área de atuação de grupos como Tehrik-i-Taliban Pakistan, Al-Qaeda, Islamic State Khorasan Province e East Turkestan Islamic Movement.
Outro ponto central da controvérsia entre Paquistão e Talibã envolve a instalação Omid, apresentada pela UNAMA como centro civil de reabilitação. Segundo analistas de segurança, o local funcionava dentro do antigo complexo militar Camp Phoenix e estaria situado próximo a estruturas de armazenamento de munição. Para críticos do relatório, essa proximidade levanta questionamentos sobre eventual integração entre infraestrutura civil e áreas de uso militar.
O movimento Afghanistan Green Trend, ligado ao ex-vice-presidente afegão Amrullah Saleh, também denunciou recentemente a transferência de armamentos e contêineres de munição para áreas urbanas próximas a mercados civis em Cabul, reforçando acusações de militarização de zonas povoadas.
Especialistas em direito internacional humanitário lembram que, segundo as Convenções de Genebra, instalações médicas e civis mantêm proteção jurídica apenas quando exercem funções estritamente humanitárias e permanecem separadas de objetivos militares. Caso sejam utilizadas para apoio operacional, armazenamento bélico ou proteção de infraestrutura armada, podem perder o status de proteção especial.
As imagens divulgadas após os ataques também alimentaram disputas narrativas. Analistas pró-Paquistão afirmam que os danos observados sugerem explosões secundárias compatíveis com detonação de munições armazenadas nas proximidades, enquanto defensores da versão apresentada pela UNAMA sustentam que as evidências continuam indicando impacto severo sobre estruturas civis.
No centro da crise está a deterioração da segurança na fronteira entre Afeganistão e Paquistão, especialmente nas regiões de Kunar, Nuristão e antigos territórios tribais próximos à Linha Durand. Islamabad acusa o Talibã de não impedir a atuação de grupos extremistas que utilizariam território afegão como corredor de infiltração para ataques contra alvos paquistaneses.
Ao mesmo tempo, críticos do relatório da ONU afirmam que as recomendações da UNAMA evitam cobrar de forma mais incisiva a desmilitarização de áreas civis, a retirada de depósitos de munição de zonas urbanas e o desmantelamento de estruturas ligadas a grupos armados.
De acordo com o governo paquistanês, o episódio evidencia não apenas o aumento da instabilidade regional, mas também uma crescente guerra de narrativas envolvendo terrorismo, direitos humanitários e legitimidade internacional no Afeganistão pós-retorno do Talibã ao poder.





