No coração da cidade de Lyon, capital francesa da saúde global, pela primeira vez, Estados se reunirão no mais alto nível para refletir sobre como colocar a abordagem “Uma Só Saúde” (One Health) no centro das políticas públicas
Emmanuel Lenain – embaixador da França no Brasil
De 5 a 7 de abril de 2026, a França sediou o One Health Summit, com uma prioridade clara: identificar soluções concretas, sustentáveis e eficazes para prevenir os riscos sanitários, alimentares e ambientais que ameaçam nossas populações e o nosso planeta.
Essa nona cúpula da agenda One Planet Summit reuniu cerca de 50 Estados, além de organizações internacionais e regionais. Foram cerca de 3 mil participantes nessa edição, que visou responder aos principais desafios que afetam a saúde humana, animal e ambiental. Por meio do fortalecimento da escuta e do diálogo entre os campos político, social e científico, esse encontro permitiu mobilizar todas as gerações em torno de um objetivo central: alcançar uma saúde justa e sustentável para todos.
Foi no coração da cidade de Lyon, capital francesa da saúde global, que ocorreu este encontro histórico. Pela primeira vez, Estados se reuniram no mais alto nível para refletir sobre como colocar a abordagem “Uma Só Saúde” (One Health) no centro das políticas públicas.
Essa abordagem reconhece as interdependências e os vínculos estreitos entre a saúde humana, a saúde animal e a saúde dos vegetais e dos ecossistemas. Agir em favor de uma dessas “saúdes” significa proteger as demais. Saúde, clima, biodiversidade, água, alimentação… Para romper os silos, precisamos conectá-los!
Ao lado dos tomadores de decisão política, convidados pelo presidente da República, estiverem dirigentes de organizações internacionais e regionais, centenas de cientistas, empresários, atores do setor financeiro, representantes eleitos, jovens e representantes da sociedade civil — todos engajados em prol de uma saúde melhor para os seres vivos e para o planeta.
Esses especialistas, de todas as disciplinas, protagonizaram eventos que destacaram as ferramentas disponíveis e as metas a serem alcançadas para construir um futuro saudável e próspero. A dimensão dessa cúpula ultrapassará Lyon: de 16 de março a 15 de maio, será realizado o One Health Festival, que promoverá cerca de 200 eventos na França e no mundo, incluindo cinco no Brasil, a fim de demonstrar a importância da abordagem “Uma Só Saúde”.
O Brasil se destaca como um país pioneiro na abordagem “Uma Só Saúde”, tanto por sua dimensão continental, abrigando seus grandes biomas e diversos saberes ancestrais e indígenas, quanto pela importância de sua agricultura e pecuária, de seu sistema universal de saúde (SUS) e de sua pesquisa científica de excelência.
O Brasil também está na vanguarda da vigilância em saúde e da prevenção de epidemias e zoonoses, e se juntou, por ocasião da cúpula e por meio da Fiocruz, à iniciativa Prezode. Lançada sob a liderança da França após a pandemia de covid-19, a Prezode reúne pesquisadores e cientistas com o objetivo de prevenir o surgimento de futuras pandemias.
A parceria entre a França e o Brasil também se materializa, há várias décadas, em programas de excelência que atuam na interface entre saúde ambiental e vegetal, saúde animal e saúde humana, como ilustram (i) o laboratório internacional “Sentinelle”, (ii) pesquisas desenvolvidas pelo Instituto Pasteur de São Paulo, (iii) importantes projetos conjuntos entre o IRD e a Fiocruz (inclusive com financiamento europeu), (iv) os projetos desenvolvidos no âmbito do Centro Franco-Brasileiro de Biodiversidade da Amazônia, e (v) o novo centro internacional de pesquisa criado pelo Instituto Nacional de Pesquisa em Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da França (Inrae) e pela Universidade de São Paulo (USP).
Muitos objetivos ainda precisam ser alcançados: acelerar a pesquisa, formar profissionais, preservar a eficácia dos antimicrobianos, reduzir a ocorrência de doenças transmitidas por animais ou insetos, melhorar nossa alimentação, proteger a biodiversidade, reduzir a poluição, mitigar os efeitos das mudanças climáticas e garantir o bem-estar mental.
Esses objetivos orientarão os debates da comunidade internacional para transformar cada intenção em ações comuns, úteis e coerentes. Não nos esqueçamos nunca de que a saúde de cada um depende da saúde de todos. Devemos assumir juntos, e desde já, o compromisso de prevenir os riscos que nos ameaçam para que possamos agir de forma mais eficaz. A abordagem “Uma Só Saúde” deve se tornar nossa bússola e nosso paradigma de ação.
Fonte: Correio Braziliense




