Evento na CLDF relembra os 32 anos do massacre no país africano e alerta para a prevenção de novos conflitos
No dia 7 de abril de 1994, começava um dos maiores massacres da história da humanidade. O genocídio contra a etnia tutsi em Ruanda perdurou até o dia 4 de julho daquele ano, resultando na morte de mais de 1 milhão de pessoas. A tragédia foi tema de uma sessão solene nesta terça-feira (7) na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), por iniciativa da deputada Doutora Jane (Republicanos).

Foto: Rinaldo Morelli/Agência CLDF
A prevenção a episódios semelhantes foi um dos principais temas da solenidade. O embaixador de Ruanda no Brasil, Lawrence Manzi, enfatizou que a prevenção exige o reconhecimento de genocídios conforme o direito internacional. “Preservar esse entendimento é muito importante para evitar que minimizem a gravidade. A distorção do genocídio é um problema que diminui o que as vítimas e os sobreviventes passaram”, disse o embaixador.
Em seu discurso, o diplomata ressaltou que o genocídio de 1994 “não foi um surto repentino de violência”, mas o resultado de décadas de divisão, discriminação e desumanização sistematicamente enraizadas na sociedade ruandesa. Ele lembrou que as bases do genocídio remontam ao período colonial, quando identidades foram formalizadas e politizadas, estabelecendo estruturas de exclusão e desigualdade.
Segundo o embaixador, a Ruanda de hoje demonstra que a recuperação é possível, mesmo após um trauma dessa magnitude, quando há liderança comprometida, instituições fortes e foco em coesão social. Ele acrescentou, porém, que a vigilância precisa ser permanente, pois os fatores que levam ao genocídio podem reaparecer se não forem enfrentados: “Em Ruanda, ‘Nunca Mais’ não é apenas um slogan, mas um compromisso duradouro”, disse, lembrando declaração do presidente Paul Kagame, durante o Kwibuka21, de que “Ruanda mudou para melhor e para sempre
O tema não está distante dos dias atuais, lembrou o representante do Itamaraty, Márcio Augusto dos Anjos, chefe da seção de África Oriental e do Norte. “Continuamos a ver surgirem novos conflitos na Europa, no Oriente Médio e na África. E novamente permanecemos atônitos e sem ação. Assistimos ao aumento da desigualdade e da pobreza, criando terreno para ressentimento, revolta e novos conflitos. Continuamos a ouvir discursos de ódio, xenofobia, racismo e intolerância”, analisou.
“Como parlamentar negra, considero muito importante reafirmar o compromisso com a não violência e a não opressão de pessoas e povos”, afirmou a deputada Doutora Jane. Ela ressaltou o sentido de Kwibuka, palavra que significa “lembrar” em Kinyarwanda, a língua nativa de Ruanda. O ano de 2026 representa o 32º Kwibuka, período anual de luto e memória sobre o genocídio.
Na opinião do decano do Grupo de Chefes de Missões Africanas em Brasília, embaixador de Camarões, Martin Agbor Mbeng, o caso de Ruanda representou uma “falha de ação” da comunidade internacional. “As pesquisas e investigações independentes da ONU concluíram que a resposta internacional falhou em aspectos cruciais de prevenção deste genocídio”, disse Mbeng.
A violência teve origem em discriminações acentuadas pelo colonialismo da Bélgica. Entre outras medidas, os colonizadores instituíram cartões de identificação étnica e priorizaram a minoria tutsi para cargos do governo, provocando tensões crescentes com a maioria hutu. A cerimônia integra o calendário internacional do Kwibuka — palavra em kinyarwanda que significa “lembrar” — e coincide com o Dia Internacional de Reflexão sobre o Genocídio contra os Tutsi em Ruanda, estabelecido pela Organização das Nações Unidas. *Genocídio planejado: décadas de discriminação e desumanização.



Fotos: Rinaldo Morelli/Agência CLDF




