Reunião setorial encerra com a assinatura de carta que reúne compromissos de preservação e gestão do patrimônio cultural; encontro da UCCI reuniu representantes de capitais da região durante três dias na capital federal

Foi encerrada, nesta sexta-feira (13), no auditório da Biblioteca Nacional Leonel Brizola, em Brasília, a segunda reunião do Comitê Setorial de Patrimônio Cultural da União de Cidades Capitais Ibero-Americanas (UCCI). Ao final dos trabalhos, representantes das cidades participantes assinaram a Carta de Brasília sobre Patrimônio Histórico-cultural, documento que estabelece compromissos de cooperação para fortalecer políticas de preservação e gestão sustentável do patrimônio.
Após a cerimônia de encerramento, no Palácio do Buriti, os delegados participaram de visitas técnicas a monumentos da área central da capital, incluindo a Praça dos Três Poderes, a Casa de Chá e a Catedral Metropolitana. A programação também incluiu um coquetel no Espaço Niemeyer antes do retorno das delegações aos seus países.
Durante três dias, representantes de capitais ibero-americanas debateram estratégias de proteção do patrimônio material e imaterial, o intercâmbio de experiências em políticas culturais e os desafios de conciliar crescimento urbano e preservação histórica. Nesses dias, estão previstos também o intercâmbio de boas práticas de gestão dessas cidades e o fortalecimento da identidade histórica urbana.

Serinter
Na avaliação do secretário de Relações Internacionais do DF, Paco Britto, o novo título amplia a projeção internacional de Brasília como capital do diálogo, da diplomacia e da preservação do patrimônio. A cidade é Patrimônio Cultural da Humanidade desde 1987 quando recebeu esse título da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Compromisso
O encontro vai abordar eixos temáticos para seguir com as discussões iniciadas em Lima (Peru), em 2025. O grupo de discussão pretende apresentar, até o final do evento, uma Carta de Compromisso comum com a preservação, valorização e gestão sustentável do patrimônio cultural.
Fazem parte da Ucci 29 cidades de 24 países ibero-americanos. A ideia da rede é permitir que as cidades compartilhem experiências e trabalhem em conjunto para enfrentar desafios comuns. Do Brasil, além de Brasília, o grupo é representado por São Paulo (SP) e o Rio de Janeiro (RJ).
Somadas, essas regiões têm 76 milhões de habitantes que falam espanhol e português. A UCCI atua como plataforma para a cooperação urbana, o intercâmbio de conhecimentos e a disseminação de boas práticas entre seus membros.
Cidade única
Segundo a pesquisadora em arquitetura Angelina Nardelli Quaglia, que estuda temas ligados à capital e periferia na Universidade de Brasília (UnB), a capital brasileira proporciona culturalmente valores únicos.
“Brasília é uma capital reconhecida internacionalmente pela arquitetura e pelos processos culturais que aqui acontecem”, afirma.
A pesquisadora entende que Brasília tem características únicas e a diversidade cultural como marca fundamental, incluindo as misturas de influências que chegam do país inteiro. A diversidade perpassa gerações, na avaliação dela. “Há uma paisagem cultural muito rica, que é a grande beleza de Brasília”.
A cidade também simboliza a democracia brasileira em diferentes momentos, como na luta pela liberdade, a Constituição de 1988 e a resistência após os ataques antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. “Eu entendo que é uma cidade à frente do tempo”.
Desafios
No entanto, Angelina Nardelli observa que a cidade, quatro anos depois de inaugurada, particularmente durante a ditadura militar (1964 – 1985), não teve legislação para manutenção do patrimônio.
“Tivemos um hiato muito grande de uma legislação que também começa a se transformar mundialmente (mas não no Brasil)”.
O cenário começaria a se alterar com o título expedido pela Unesco em 1987. “A memória foi reconhecida como patrimônio”. A pesquisadora compreende que a manutenção do patrimônio em Brasília não é simples.
A capital aprovou, por exemplo, há dois anos, o Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB). Mas a pesquisadora entende que são necessários mais recursos e políticas públicas de proteção para que tanto o tombamento quanto a manutenção estejam em ordem. “Em Brasília, isso devia ser um exemplo, mas ainda não é. A capital é uma cidade muito nova”, diz.
“Foi um reconhecimento das capitais ibero-americanas ao trabalho de preservação e conservação de Brasília. Esse prêmio representa o cuidado com os monumentos e com a cultura da cidade. Preservar o patrimônio cultural vai além da proteção de edifícios históricos. Significa preservar memória, identidade e diversidade, ao mesmo tempo em que buscamos caminhos para conciliar preservação e desenvolvimento”, explicou.
A diretora-geral da UCCI, Luciana Binaghi Getar, destacou que o reconhecimento concedido à capital brasileira foi aprovado por consenso entre as cidades integrantes da rede. “Brasília é uma cidade viva e moderna. Mesmo com mais de 60 anos de construção, seus edifícios preservam um modernismo que continua impressionando. Para muitos urbanistas, é uma cidade modelo”, defendeu.
Segundo ela, a diversidade entre as cidades participantes fortalece o intercâmbio de experiências em torno da preservação cultural. “As cidades da UCCI são muito diferentes entre si, mas compartilham o compromisso de valorizar o patrimônio cultural. Essa diversidade enriquece o diálogo e a cooperação entre nós”, disse.
Durante o encontro, que reuniu representantes de capitais da América Latina e da Península Ibérica, Brasília também recebeu o prêmio de Capital Ibero-Americana de Patrimônio Cultural, reconhecimento internacional pelas políticas de preservação do patrimônio histórico e urbanístico da cidade.





