Após encontro entre Lula e Trump, representantes dos países se reúnem para definir próximos passos e vão criar cronograma de negociação sobre taxas. Apesar do tom amistoso com o brasileiro, republicano mostrou cautela sobre entendimento
Um dia após seu primeiro encontro formal com Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou estar confiante em uma resolução “rápida e equilibrada” para as disputas comerciais entre Brasil e Estados Unidos. O petista disse que negociadores dos dois países já receberam a missão de construir, nos próximos dias, as bases de um acordo que ponha fim às tarifas impostas por Washington sobre produtos brasileiros.
“Ele (Trump) garantiu que vamos ter acordo, e acho que vai ser mais rápido do que muita gente pensa. Estou convencido de que, em poucos dias, teremos uma solução definitiva entre Estados Unidos e Brasil”, ressaltou Lula, em Kuala Lumpur, na Malásia, onde encerrou viagem pelo leste asiático.
Na manhã desta segunda-feira (27), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reuniu-se com representantes do governo norte-americano para definir os próximos passos da negociação. Ele estava acompanhado do secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Rosa, e do assessor especial da Presidência, embaixador Audo Faleiro.
Segundo Rosa, as duas partes concordaram em criar um cronograma de reuniões entre equipes técnicas e buscar um acordo “satisfatório para ambos os lados”. “Hoje, estamos num cenário muito mais positivo do que estávamos há alguns dias”, afirmou. De acordo com fontes do Planalto, os principais entraves envolvem o aço e os produtos agrícolas — setores historicamente sensíveis nas relações bilaterais.
Já o presidente em exercício, Geraldo Alckmin, destacou que os próximos passos serão definidos com o retorno de Lula ao país. “Vamos aguardar a volta do presidente para a gente conversar sobre os próximos passos, mas estamos otimistas. Eu acho que tem um caminho bom pela frente, para poder avançar”, ressaltou, em entrevista ao portal ICL Notícias.
Na Ásia, porém, Trump evitou fazer promessas sobre o acordo. “Vamos ver o que acontece. Eles gostariam de fazer um acordo. Vamos ver. Neste momento, eles estão pagando 50% de tarifa”, afirmou, antes de embarcar para o Japão. O republicano, no entanto, classificou a reunião com Lula como “muito boa” e desejou feliz aniversário ao chefe de Estado brasileiro, que completou 80 anos nesta segunda-feira. “Ele é um cara muito vigoroso, e fiquei impressionado”, disse.
De acordo com o cientista político Márcio Coimbra, ex-diretor da Apex, o processo de reaproximação entre Brasil e EUA deve ocorrer em três fases. A primeira, de curto prazo, envolveria a criação de um grupo de trabalho bilateral e a revisão das barreiras tarifárias. Em seguida, viriam acordos setoriais — especialmente agrícola, industrial e energético. Por fim, parcerias estratégicas de longo prazo. “Estamos em um momento de reconstrução da confiança. A criação de um grupo de trabalho é o primeiro passo para resolver impasses e abrir espaço para acordos justos e equilibrados”, explicou.
Segundo Coimbra, o grupo de trabalho será composto por técnicos e diplomatas de ambos os lados e terá como missão mapear pontos de conflito específicos e propor soluções de curto e médio prazos. Também será retomado o diálogo regular entre ministérios da Agricultura e do Comércio/Economia, além de encontros entre os representantes comerciais — o USTR (do lado americano) e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (pelo Brasil).
A primeira etapa das negociações prevê medidas imediatas de confiança mútua. O governo brasileiro deve avaliar a possibilidade de rever ou suspender retaliações sobre o açúcar americano, um tema sensível para Washington, em troca de contrapartidas. Do lado dos EUA, há expectativa de que sejam revisadas as cotas de aço e alumínio brasileiros, atualmente justificadas por motivos de “segurança nacional”, além da suspensão de ameaças de novas tarifas sobre exportações do Brasil.
Fonte: Correio Brasiliense





